Em agosto de 1970, o escritor argentino Jorge Luis Borges esteve em um curso de madureza no bairro da Liberdade, na instituição Santa Inês. O episódio, que carrega o tom enigmático típico da obra do autor, é registrado no livro Borges Babilônico, uma enciclopédia organizada por Jorge Schwartz.
O diálogo na portaria
Ao chegar ao local, o autor foi submetido à recepção burocrática padrão. Ao ser questionado sobre seu nome, respondeu ser Jorge Luis Borges. O funcionário, ao conferir as listas, perguntou se ele era aluno ou professor, recebendo respostas negativas a ambas as indagações. Quando questionado se pretendia fazer uma matrícula, Borges, então com setenta anos, cego, já consagrado internacionalmente e prestes a ser homenageado em uma Bienal do Livro, ponderou que talvez ainda pudesse aprender algo que não tivesse inventado.
Durante o preenchimento da ficha, ao ser indagado sobre sua data de nascimento — 1899 —, o funcionário perguntou se ele tinha certeza. Com um sorriso, Borges respondeu: "Cada vez menos."
A palestra e os estudantes
A turma era composta por comerciários, donas de casa e um vendedor de seguros que, no período noturno, estudavam matérias como História, Geografia, Português e o desafio cotidiano de continuar a trajetória escolar. Naquela noite, os alunos foram informados sobre a palestra de um escritor argentino. Diante do questionamento sobre sua fama e se ele havia escrito novelas, a discussão sobre a notoriedade do visitante pairou sobre a sala.
Conduzido pelo braço, Borges entrou na sala e discursou sobre temas recorrentes em sua trajetória e literatura, como bibliotecas, tigres, espelhos e labirintos.
O limite da literatura
Durante a interação, um dos alunos levantou a mão e fez uma pergunta milenar: "Professor, para que serve literatura?" Borges respondeu com reflexões sobre felicidade, destino e memória. No entanto, o estudante insistiu com um questionamento prático: "Cai na prova?"
Após a conversa, ao saber que o curso se chamava "madureza" por ser destinado a adultos que retornavam aos estudos, o escritor concluiu: "Estou a caminho há setenta anos. Então todos somos alunos." Enquanto a diretoria interpretou a fala como uma gentileza, Borges, familiarizado com o conceito do infinito, compreendia que o aprendizado não possui conclusão definitiva.
Fonte original: Jornal Rascunho