O audiolivro 'Bom dia, inverno', de Tamara Klink, ganhou sessão especial de escuta no Cine Tutu, em São Paulo, e a audiossérie estrelada por Selton Mello, 'França e o labirinto', está nas indicações da coluna
VIVA-VOZ | Com Fabio Uehara
Apresentador do Podcast do PublishNews desde 2018, Fabio Uehara vai dar uma aula aberta, online e gratuita na Seiva, Como trabalhar com audiolivros, ombro a ombro com outro nome que se mistura à história dos audiolivros no país: Antonio Hermida, à frente da área digital da Companhia das Letras e colunista do PublishNews. O encontro virtual será no dia 5 de novembro, às 19h30. Interessou? As inscrições podem ser feitas aqui.
“Sempre quisemos trabalhar juntos e vamos reunir as nossas experiências. A ideia é mostrar como o mercado de audiolivros funciona na prática: os processos, as pessoas e os valores envolvidos na produção, e onde estão as oportunidades para quem edita, narra e produz”, conta à Ler o Som.
Neste Viva-Voz, ele rebobina os seus 25 anos de atuação no mercado editorial: da direção de arte da Companhia das Letras à Hedra, na qual cuida dos audiolivros. Fabio Uehara acredita que o mercado brasileiro reúne agora, após anos de preparação, as condições ideias para crescer em larga escala. Acostumado a fazer perguntas, desta vez é ele quem responde às nossas. Leia a entrevista com Monica Ramalho!
Fabio, você passou muitos anos trabalhando com livros impressos antes de mergulhar no universo digital. Quando o áudio entrou na sua vida profissional?
Desde pequeno, sempre fui interessado em livros, daqueles que deixavam de brincar para ler, além de ser também fascinado por tecnologia. Trabalhei na Companhia das Letras como diretor de arte e sempre acompanhei o movimento de digitalização das mídias, como a música e o cinema, no final dos anos 2000. Quando comecei a ler e-books e ouvir audiolivros no iPod, achei fascinante como aquelas histórias eram tão intensas e imersivas através dos meus fones, e de um jeito diferente.
Ajudei a criar o departamento digital da Companhia já nos anos 2010. Além da implantação dos e-books, investimos nos audiolivros, fazendo as primeiras produções. Logo depois, fui trabalhar em um estúdio e plataforma pioneiros em audiolivros, a Tocalivros, ajudando a pensar em diversos projetos de áudio junto às editoras, incluindo produções inéditas, e auxiliando nas parcerias com as outras plataformas. Também colaborei na criação de um estúdio de podcast e em diferentes projetos de videocasts.
Atualmente, sou o responsável pela área de audiolivros da Hedra, uma editora independente que produz seus audiolivros internamente, de forma muito particular e profissional. Agora, estamos construindo um estúdio próprio, um dos primeiros mantidos por uma editora no mercado brasileiro.
Você está à frente do Podcast do PublishNews desde 2018. O que esses oito anos de conversas te ensinaram sobre o mercado editorial e a arte de entrevistar?
É um desafio produzir um conteúdo relevante toda semana, por todo esse tempo, de forma praticamente ininterrupta. Mesmo com 25 anos de experiência de mercado editorial, sempre é um aprendizado ouvir uma perspectiva diferente ou descobrir algo completamente novo. Fico fascinado com as novas formas de levar a leitura para as pessoas e com o trabalho de autores, editores e tantos outros profissionais do mercado.
O Podcast do PN me ensinou muito sobre ouvir e ser curioso. Não acho que domine essa arte, mas sinto prazer em conversar com as pessoas sobre o que fazem para que o mercado editorial aconteça em suas mais diversas áreas.
E soube que também já esteve do outro lado do microfone, narrando um audiolivro. Como foi essa experiência?
Eu já sabia o quão desafiador pode ser narrar um livro, por ser um ouvinte de audiolivros e, claro, pela experiência de acompanhar as produções nos estúdios. Porém, estar diante do texto e de um microfone me mostrou que dominar as palavras daquelas páginas, ter uma dicção correta (sei que ainda tenho muito a melhorar) e uma voz adequada não é nada se comparado à presença e à concentração exigidas naqueles minutos dentro da cabine.
Passei a admirar ainda mais esses profissionais. Narrar bem vai muito além de saber contar uma boa história para alguém ou para um filho. Exige técnica, talento e estudo que não alcanço. Prefiro me sentar do outro lado do vidro do estúdio e trabalhar para que cada vez mais pessoas ouçam audiolivros.
Na Hedra, você trabalha com um catálogo que reúne clássicos, filosofia e literatura. Que desafios esses livros apresentam quando passam do papel para o áudio?
Um clássico é uma história que venceu o tempo pela qualidade de seu texto, que já possui tantas versões e leituras. Fazer um audiolivro à altura disso, que seja único e ao mesmo tempo reconhecível, é um enorme desafio diário enfrentado pelo time da Hedra. Alberto Eloy, narrador e diretor, e Thiago Sampaio, editor e produtor, que o digam!
A Hedra é uma editora que procura levar textos densos e da chamada alta cultura para todos. Os audiolivros precisam estar à altura dessa proposta, sem perder o caráter cultural e também o potencial de entreter e informar.
Depois de tantos anos acompanhando o mercado brasileiro de audiolivros, o que mais anima você no futuro próximo?
O mercado de audiolivros no Brasil passou praticamente toda esta década de 2020 se aquecendo para este momento, com profissionais preparados, tanto na narração quanto na parte técnica, estúdios extremamente capazes e editoras cada vez mais conscientes do papel que o audiolivro pode exercer. Agora, com a chegada dos grandes players internacionais e a ampliação das plataformas de comercialização, que se juntam àquelas já consolidadas no Brasil, temos o cenário montado para produzir este formato em larga escala.
O brasileiro tem familiaridade e apreço pelas histórias orais, pela dramaturgia, pelo rádio e, mais recentemente, pelos podcasts. O audiolivro se beneficia dessa relação com a escuta. É outra maneira de levar a leitura às pessoas e de aproximar dos livros até quem perdeu o hábito de ler.
GRAÚDAS
Audição de ‘Bom dia, inverno’ no Cine Tutu © Mônica Andrade
MASCARADOS A BORDO | O audiolivro Bom dia, inverno, escrito pela velejadora Tamara Klink, foi lançado essa semana em sessão especial de escuta no Cine Tutu, em São Paulo. A equipe responsável pela produção estava presente: a editora Alice Sant’Anna, Antonio Hermida, responsável pela área digital da Companhia das Letras, e a produtora do audiolivro, Tainá Grassi. Servidos de café, chá de hibisco e biscoitos decorados com ilustrações da filha de Amyr Klink, os convidados receberam máscaras de dormir na chegada e ouviram juntos 25 minutos de trechos selecionados da obra, gravada e mixada no estúdio paulista Audioman. Cercada pela família, Tamara conversou com a plateia, com pouco mais de 100 convidados, e cada um levou para casa um pé de hortelã, planta que acompanhou a escritora na viagem que deu origem à obra.
GUERRA DO VELHO | Os fãs de John Scalzi já podem maratonar a série Guerra do Velho. A Aleph disponibilizou na Audible os seis livros da saga de ficção científica do escritor norte-americano: Guerra do Velho, As brigadas fantasma, A última colônia, O conto de Zoe, A humanidade dividida e O fim de todas as coisas. Todos ganharam a voz do ator e dublador Mauro Ramos. Gravada nos estúdios da ptBR, em São Paulo, a produção foi coordenada pela Bookwire, responsável pela interlocução com o estúdio a partir das orientações da editora. Para Mauro, a experiência trouxe reflexões sobre a vida real, mesmo em tramas interplanetárias. “Como é que a política interfere na vida das pessoas?”, questiona o narrador à Ler o Som, para quem um dos temas recorrentes na série é “a luta pela liberdade de agir”.
ALEMÃES PUXAM A BOOKBEAT | Os ouvintes alemães estão impulsionando o crescimento da BookBeat, plataforma sueca de streaming de audiolivros e livros digitais pertencente ao grupo Bonnier Books. Nos primeiros nove meses de 2026, a empresa registrou um aumento de 13% na receita, descontados os efeitos cambiais, e projeta encerrar o ano com faturamento de 1,7 bilhão de coroas suecas (cerca de R$ 920 milhões). Com mais de 1,2 milhão de assinantes pagantes, a BookBeat cresce em seus dez principais mercados, mas é na Alemanha que registra a maior expansão de novos usuários. Segundo o CEO Niclas Sandin, a concorrência de grandes plataformas internacionais tem contribuído para ampliar a demanda por audiolivros no país. Nos mercados nórdicos, mais maduros, a disputa tem reduzido o ritmo de crescimento. Desde sua estreia, em 2015, os usuários da BookBeat já acumularam 1,5 bilhão de horas de leitura e escuta. Atualmente, consomem quase um milhão de horas por dia.
STORYTEL EM CAMPO | A Storytel encerrou o terceiro trimestre de 2026 com 2,83 milhões de assinantes pagantes, após conquistar 80 mil novos usuários entre julho e setembro, o maior crescimento trimestral desde 2023. Para dimensionar esse número, imagine um Maracanã completamente lotado, com mais de mil pessoas do lado de fora. É o equivalente ao público que a plataforma acrescentou à sua base em apenas três meses. Segundo o balanço divulgado nesta terça-feira (27), a receita do serviço de streaming de livros aumentou 8% em relação ao mesmo período do ano passado, alcançando 1 bilhão de coroas suecas. A receita total do grupo, que também atua no mercado editorial, cresceu 16,5% em moeda constante. A empresa mantém suas projeções financeiras para o encerramento de 2026.
ESCUTA ESSA
Selton Mello é o protagonista da audiossérie noir ‘França e o labirinto’
LUPA NOS OUVIDOS | Em 2018, Alexandre Ottoni e Deive Pazos, da Jovem Nerd, começaram a criar uma história noir para ser narrada em áudio. Estrelada por Selton Mello, França e o labirinto estreou em 2023, no Spotify, e continua pulando de ouvido em ouvido. Com roteiro de Leonel Caldela e Fábio Yabu, a audiossérie parte de uma regra: o protagonista nunca sai de cena. O passado reaparece em fitas cassete, por exemplo. São 13 episódios em torno de Nelson França, um detetive particular cego que volta a investigar um caso perturbador de anos atrás. Mais de cem profissionais atuaram na produção, com direção de vozes de Fernanda Baronne e desenho sonoro supervisionado por Caio Gox.
“Nunca tinha feito uma direção de algo de voz original. Foi realmente incrível essa experiência para mim. Bem diferente das coisas que estava acostumada a fazer. Foi muito desafiador e muito divertido. E tivemos todos liberdade para criar. Existia um roteiro, mas pudemos trocar texto para deixar mais natural, para transformar aquelas palavras em palavras realmente dos personagens, e não só num texto, para que aquilo ficasse o mais crível possível”, diz Fernanda à Ler o Som. O grande barato está no áudio binaural: com fones, é possível perceber uma voz atrás de você, uma porta se abrindo à esquerda ou o cão Bonaparte babando aos seus pés. Taí uma dica de suspense para ouvir de corpo inteiro!
SUPERSTIÇÃO OU SORTE? | O que Edgar Allan Poe (1809-1849), mestre do suspense e do macabro, ainda tem a nos dizer? No episódio do TocaCast que estreou na sexta-feira, 23 de outubro, Clayton Heringer e Reinaldo José Lopes conversam sobre a vida turbulenta do escritor norte-americano e seus clássicos, como O corvo, O coração delator, O gato preto e A queda da Casa de Usher. O papo descontraído passa também pelas traduções de Machado de Assis (1839-1908) e Fernando Pessoa (1888-1935) e pelos bastidores da produção especial em audiolivro da Tocalivros. Curiosidade para os supersticiosos de plantão: o TocaCast chegou aos 13 episódios, apenas dois meses depois da estreia. Coincidência? Edgar Allan Poe ficaria todo animado.
*Monica Ramalho é jornalista e fotógrafa, comunicadora e parecerista de editais de cultura, segmento no qual atua há mais de 25 anos e tem um nome consolidado. É também criadora de...
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Fonte original: PublishNews