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Da oralidade ao papel: escritora Isabella Miranda estreia na literatura infantojuvenil com obra inspirada em tradições da Ilha do Marajó

Da oralidade ao papel: escritora Isabella Miranda estreia na literatura infantojuvenil com obra inspirada em tradições da Ilha do Marajó

Em sua estreia literária com 'Anete e o peixinho Bambo', a paraense Isabella Miranda transforma memórias e narrativas ancestrais de sua família marajoara em uma homenagem à cultura amazônica e à representatividade infantil.

Por Redação •

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A oralidade sempre funcionou como um pilar fundamental para manter a memória, a identidade e a cultura vivas em diversas regiões do Brasil. Muito antes de se consolidar por meio da escrita, a transmissão oral de saberes atua como a herança ancestral de famílias e territórios, além de servir como uma porta de entrada essencial para aproximar o público infantil do universo literário. É fundamentada nessa rica tradição que a escritora paraense Isabella Miranda faz sua estreia na literatura infantojuvenil com a obra 'Anete e o peixinho Bambo', lançada pela Companhia das Letrinhas.

O processo de criação do livro nasceu de forma espontânea durante uma viagem de férias ao Pará. Enquanto conversava com a mãe na rede, Isabella começou a escutar relatos tradicionais que eram repassados por gerações em sua família, na Ilha do Marajó. Ao perceber que a mãe enfeitava as palavras de maneira única a cada narrativa, a autora decidiu gravar os relatos de forma secreta para revisitar a memória afetiva quando estivesse longe. De volta a São Paulo, ao compartilhar a história de uma menina e um peixinho dourado com amigos e receber o incentivo de sua ex-companheira, a escritora compreendeu o potencial daquelas vivências para ganhar as páginas de um livro, superando inclusive os estigmas históricos que frequentemente recaem sobre a região marajoara.

Com o suporte de nomes experientes do meio literário, Isabella estructurou a narrativa posicionando sua avó como a grande narradora da história, enquanto sua mãe e o Lago Arari assumem o protagonismo central. A escolha do nome da protagonista, Anete, foi uma forma direta de homenagear sua mãe e permitir que mulheres pretas e nortistas possam, finalmente, se ver refletidas nas páginas de um livro infantil. Em relatos sobre sua infância, a mãe da autora destacava como o acesso à leitura era limitado aos exemplares deixados por patroas e que sempre retratavam meninas brancas, dificultando a autoimagem positiva naquelas leitoras em formação. A obra busca justamente romper com essa lacuna, oferecendo uma literatura amazônica autêntica.

A influência da região Norte transparece em cada detalhe da publicação, desde a construção da narrativa até a identidade visual. Para garantir a fidelidade cultural, Isabella convidou a muralista e ilustradora Michelle Cunha, moradora de Soure, na Ilha do Marajó, para assinar as ilustrações que retratam elementos típicos como vestidos de retalhos e tiaras de fuxico. A autora destaca que o lançamento foi celebrado com entusiasmo pela comunidade local, simbolizando uma conquista coletiva para o povo marajoara. Para ela, o papel da literatura vai muito além do entretenimento: trata-se de plantar sementes de pertencimento, permitindo que crianças de diferentes partes do país possam conhecer, imaginar e reconhecer a Amazônia através do olhar de quem realmente pertence àquela terra.


Fonte original: Quatro Cinco Um


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