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A 'Salsicha de Literatura': Quando o artista Dieter Roth transformou livros em embutidos

A 'Salsicha de Literatura': Quando o artista Dieter Roth transformou livros em embutidos

Conheça a história por trás da 'Literaturwurst', obra do artista Dieter Roth que integra o acervo do MoMA e substitui a carne moída por livros triturados.

Por Redação •

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O catálogo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) descreve um objeto incomum que desafia as convenções tradicionais da biblioteconomia e das artes visuais: um livro composto por ingredientes que incluem gelatina, gordura, temperos, tripa natural e papel triturado. Trata-se da “Literaturwurst” (salsicha de literatura), uma criação do artista Dieter Roth datada de 1969. Quem busca por páginas tradicionais ou trechos legíveis neste objeto não obtém sucesso, visto que o material literário foi integralmente incorporado ao recheio.

Entre os anos de 1961 e 1970, Roth produziu cerca de cinquenta unidades dessa série peculiar. O processo de confecção seguia rigorosamente o procedimento de um embutido comum, com uma alteração drástica: no lugar da carne moída, o artista inseria um livro ou uma revista reduzidos a pequenos pedaços. Misturado aos demais componentes, o material editorial ganhava uma nova forma física que impossibilitava qualquer tentativa de leitura convencional. A classificação artística, contudo, permanece inalterada, tratando-se de uma obra conceitual e não de um item alimentício.

O exemplar específico de 1969 sob a guarda do MoMA possui uma procedência documentada. A publicação utilizada na confecção foi a edição alemã da obra “To Seek a Newer World”, de Robert F. Kennedy, lançada sob o título “Suche nach einer Neuen Welt”. A identificação da fonte evita interpretações superficiais que reduzam o trabalho a uma simples brincadeira com publicações indesejadas, garantindo que a informação sobre o conteúdo original sobreviva nos registros do museu, mesmo fora do alcance visual direto.

A trajetória de Dieter Roth ajuda a contextualizar a natureza de seu gesto artístico. Nascido em Hannover em 1930, o artista iniciou seu aprendizado em artes gráficas em Berna a partir de 1947, acumulando vasta experiência com publicações e projetos editoriais antes de dar início à série de salsichas literárias. Registros cronológicos apontam que, em 1961, em Reykjavík, ele já realizava experimentos triturando romances e os misturando a gordura e especiarias. Sua intenção não era meramente destruir o papel, mas subverter a familiaridade que possuía com a organização de páginas e a manipulação de materiais impressos.

Essa proximidade com o universo editorial torna a operação conceitualmente precisa. Enquanto um livro comum utiliza o suporte do papel para estruturar uma ordem lógica que permite ao leitor avançar, retroceder ou comparar trechos, a intervenção de Roth preserva a matéria-prima ao mesmo tempo em que anula o acesso ao texto. O resultado é categorizado institucionalmente como um livro de artista, embora desafie a própria definição funcional da palavra. Além disso, o uso de elementos excessivamente domésticos — como gordura e temperos — afasta a solenidade típica de esculturas tradicionais em bronze, posicionando a obra em um limiar inconclusivo: o volume original não pode ser lido, e o objeto resultante jamais deve ser servido à mesa.


Fonte original: Revista Bula


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