Quarta-feira, 30 de setembro de 2026 PORTAL LITERÁRIO • RESENHAS, OBRAS E AUTORES

BookSense

A inteligência editorial que conecta leitores às grandes histórias

A Relação Entre Colonialismo, Meio Ambiente e a Luta por Justiça Ecológica

A Relação Entre Colonialismo, Meio Ambiente e a Luta por Justiça Ecológica

Por Redação •

0:00
--:--

No final do mês de agosto, o auditório da Biblioteca Mário de Andrade, localizado no centro de São Paulo, recebeu um público expressivo para acompanhar a palestra do pensador martinicano Malcom Ferdinand. Conduzido em português com a mediação de Guilherme Moura Fagundes, o evento teve como eixo central a discussão sobre o que o autor define como o “habitar colonial” da Terra, uma dinâmica que naturaliza tanto a contaminação ambiental por agrotóxicos quanto o sacrifício de populações marginalizadas, tratadas como descartáveis.

Nascido na Martinica em 1985, Ferdinand é formado em engenharia ambiental pela Universidade College London, no Reino Unido, e possui doutorado em filosofia política e ciência política pela Universidade Paris Diderot, na França. Atualmente, atua como pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris. Sua trajetória acadêmica é marcada por desafios em um ambiente predominantemente branco, reflexo de sua origem colonial e de sua identidade negra.

Ao denunciar os graves impactos à saúde humana decorrentes da utilização do pesticida clordecona — substância aplicada para o controle da broca-da-bananeira nas Antilhas — e ao examinar os reflexos dessa contaminação na estrutura social local, o autor questiona as bases da lógica colonialista global. Para o público brasileiro, a análise evoca imediatamente paralelos com as extensas práticas de monocultura e os modelos de exploração territorial presentes no país.

Durante sua reflexão sobre os mecanismos de dominação, Ferdinand aborda a complexidade da contaminação nas Antilhas e ressalta que o problema possui tanto especificidades locais quanto uma dimensão global. Enquanto ilhas como Martinica e Guadalupe permitem maior liberdade de expressão devido às garantias legais, outras regiões do mundo enfrentam barreiras políticas severas que impedem denúncias semelhantes. O autor também destaca casos de territórios ecológica e politicamente vulneráveis ligados a potências ocidentais, a exemplo de Porto Rico e Guam sob a tutela dos Estados Unidos, e a Groenlândia em relação à Dinamarca.

O conceito central da obra de Ferdinand, o “habitar colonial”, descreve uma forma violenta, patriarcal, racista e misógina de ocupação e exploração do planeta. O autor aponta que abordagens puramente técnicas sobre desastres ambientais, focadas apenas nas propriedades moleculares de substâncias tóxicas, tendem a despolitizar o debate. Em contrapartida, propõe uma análise aprofundada que coloque em xeque as relações com a justiça, a ciência, a produção industrial e o consumo.

A partir dessa perspectiva, desastres ecológicos como os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, deixam de ser vistos isoladamente como falhas técnicas pontuais e passam a ser compreendidos como sintomas de um modelo extrativista estrutural. O pesquisador observa que o Brasil vivencia um colonialismo doméstico, no qual regiões metropolitanas e polos de riqueza subordinam áreas periféricas de extração — dinâmicas visíveis não apenas na mineração mineira, mas também nos canaviais paulistas e na expansão da soja sobre o Cerrado e a Amazônia, onde frequentemente se utilizam pesticidas já banidos na Europa.

Outro ponto de destaque na obra de Ferdinand é a reflexão linguística e cultural. Nas edições de seus livros, optou por manter trechos iniciais em crioulo sem tradução, valorizando a língua materna das populações mais afetadas pelas contaminações e desafiando a hegemonia dos saberes acadêmicos tradicionais. O autor também relata os obstáculos enfrentados em sua trajetória acadêmica na França, onde aponta a existência de barreiras institucionais e atitudes discriminatórias na produção de conhecimento científico.

Por fim, ao defender uma “política de amor pela Terra”, o pesquisador propõe que o cuidado ambiental seja o centro das políticas públicas, superando a separação artificial entre os seres humanos e a natureza. Para Ferdinand, reconhecer o conceito de corpo-Terra e integrar as comunidades tradicionais e saberes ancestrais nos processos científicos e políticos é um passo fundamental para a construção de novas realidades ecológicas e sociais.


Fonte original: Quatro Cinco Um


Leia Também