“Estamos ali para sermos escritas. Para sermos eternas.”
Quem são as pessoas interessadas nas vivências de travestis? Quantos personagens e autoras travestis você conhece?
“Tive de inventar meus próprios papéis porque ninguém havia pensado em personagens para travestis como eu”, afirma a atriz e escritora argentina Camila Sosa Villada, em entrevista cedida à jornalista Ivana Romero.
A fala de Camila, considerada uma das mais potentes vozes da literatura latino-americana contemporânea, dialoga diretamente com o seu estilo de escrita, que flutua entre a memória e a ficção.
Nesse sentido, seu fazer literário atravessa os muros da escrita de si, da ipseidade. Como bem pontuou a autora em sua passagem pela Flip: “Tenho o direito de fazer ficção, não preciso escrever só sobre a experiência de travesti, só sobre a minha própria tragédia”.
Seguindo esta trilha, a autora traz à tona não apenas registros da expressão vivencial e da comunidade trans — evocando em seus textos as vivências de suas irmãs magníficas, marcadas pela violência, pelo preconceito e pela invisibilidade —, mas também elabora um estilo de escrita livre, desprendido de toda rigidez classificatória.
Autoficção, poesia, realismo fantástico, prosa poética, ensaio, dramaturgia e performance. Camila bebe em muitas águas e derrama em seus textos não só uma dimensão política atrelada aos modos de enunciação e crítica social, mas, sobretudo, um universo de possibilidades, fazendo uso de variados recursos e técnicas sempre com expressividade e sensibilidade.
“A noite é profunda: gela sobre o Parque. Árvores muito antigas, que acabam de perder suas folhas, parecem suplicar ao céu algo indecifrável, mas vital para a vegetação. Um grupo de travestis faz sua ronda. Seguem amparadas pelo arvoredo. Parecem parte de um mesmo organismo, células de um mesmo animal.”
Quando chegou à cidade de Córdoba para estudar na universidade, a autora argentina Camila Sosa Villada decidiu ir ao Parque Sarmiento durante a noite. Estava morta de medo, pensando que poderia se concretizar a qualquer momento o brutal veredito que havia escutado de seu pai: “Um dia vão bater nessa porta para me avisar que te encontraram morta, jogada numa vala”. Para ele, esse era o único destino possível para um rapaz que se vestia de mulher.
Camila queria ver as famosas travestis do parque, e lá, diante daquelas mulheres e da difícil realidade a que são submetidas, foi imediatamente acolhida e sentiu, pela primeira vez em sua vida, que havia encontrado seu lugar de pertencimento no mundo.
O romance O parque das irmãs magníficas é isso tudo: um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora. Nestas páginas convergem duas facetas da comunidade trans, facetas que fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti.