O renomado historiador e crítico literário francês Hippolyte Taine (1828-1893) assina uma obra singular onde a descoberta progressiva do mundo e do ser é narrada inteiramente sob o ponto de vista de um felino. Desde o momento em que abre os olhos pela primeira vez, o protagonista bichano mergulha em uma intensa jornada de questionamentos existenciais até alcançar o discernimento da razão.
Descrita apropriadamente como um “breve tratado de filosofia felina”, a obra Vida e opiniões filosóficas de um gato, originalmente publicada em 1858, desembarca no Brasil através da Editora 34. A edição brasileira conta com tradução assinada por Samuel Titan Jr. e resgata as ilustrações originais criadas por Gustave Doré (1832-1983), cujos traços foram fundamentais para consolidar a popularidade do texto na época de seu lançamento na Europa.
O volume também é enriquecido por um posfácio redigido por Paolo Tortonese, historiador da literatura e professor emérito da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Em sua análise sobre o texto, Tortonese destaca a relevância da perspectiva animal para o público humano: “É do interesse dos humanos observar a vida animal a fim de tomar alguma distância das constrições da civilização”.
Originalmente veiculada como um segmento dentro do livro Voyage aux Pyrénées (Viagem aos Pireneus, ainda sem edição publicada em português), a narrativa demonstra a paixão profunda que Taine nutria pelos gatos. O especialista aponta que essa faceta da vida do autor era, em vida, um segredo restrito aos familiares e amigos mais íntimos que frequentavam sua residência, espaço onde conviveu com seus três gatos de estimação: Puss, Ébène e Mitonne.
No decorrer do livro, a voz narrativa do felino filósofo ironiza as crenças tradicionais transmitidas por seus ancestrais sobre a origem e a mecânica do universo, propondo teorias próprias baseadas em sua observação perspicaz do cotidiano doméstico:
- A teoria do celeiro: Os ancestrais mais antigos defendiam que o céu seria um celeiro gigantesco onde habitavam ratos roliços em abundância infinita, uma visão limitada e típica de felinos cuja dieta se restringia exclusivamente à caça de roedores.
- A divindade do espeto: Linhagens mais cultivadas de antepassados felinos julgavam que o espeto de assar da cozinha representava o próprio Deus, fonte de todas as benesses que girava eternamente. A ilusão, contudo, é desfeita pelo protagonista após constatar que o objeto é regularmente lavado, secado e guardado.
- O mundo como um ovo: Através de analogias baseadas na lógica de que os animais nascem de ovos, o gato conclui que a terra é, na verdade, um grande ovo rachado e cozido lentamente pelo sol — que funcionaria como uma tocha rubra —, fazendo do cosmos um verdadeiro ovo mexido.
Avançando em suas deduções metafísicas, o felino atinge o ápice de sua iluminação intelectual, declarando-se satisfeito com a própria sabedoria alcançada, ressalvando apenas a expectativa por eventuais sobras gastronômicas deixadas pela cozinheira. A publicação oferece ao leitor brasileiro um mergulho raro na sensibilidade literária do século XIX aliada ao humor perspicaz da literatura felina.
Fonte original: Quatro Cinco Um